Chegamos ao empasse da psicologia, ao tempo em que esta área está sendo contaminada pela visão capitalista de mundo, pela maldita visão que mistura tudo e diz "goze, faça tudo o que quiser, você consegue tudo, você é dono de tudo". O próprio Deus fora morto e retirado das frases de caminhão. No antes: "Não sou dono do mundo, mas sou filho do dono". No depois: "Sou dono do mundo". Viramos deuses, temos feito o que bem entendemos sequer sem pensarmos se o que entendemos é ético, respeitoso e digno de ser realizado.
Das escolas primeras na psicologia - associacionismo, estruturalismo, funcionalismo - "evoluímos" para a psicanálise, o behaviorismo, a gestalt, o humanismo, a esquizoanálise, a psicologia social, cognitiva, etc. Cada teoria, sempre em sua pretensão divina de dar conta de toda a realidade, universalizou seu conhecimento, mesmo quando disse que tudo é relativo (se tudo é relativo, até mesmo o conhecimento desta teoria é relativo, portanto, há algo absoluto). A episteme era universal. O conhecimento de cada base teórica norteava toda a prática.
Contudo, chegamos a um outro momento. Provavelmente sendo influenciados pelas linhas da auto-ajuda, sistema de idéias xulas e toscas que influenciam a vida de milhões de ocidentais para que estes realizem tudo que queiram, independente da sociedade, do tempo, da vida ("faça o que bem entender, a vida é sua, você não depende de nada". A psicologia entra em uma nova fase, eclética (tanto a auto-ajuda quanto a abordagem eclética tiveram início nos Estados Unidos; mera coincidência?), na qual a teoria perde sua força, já não dá mais conta da realidade, é relativa.
Relativizar a teoria é um ganho. Há situações que uma psicanálise é melhor que outras linhas e vice-versa. No entanto, há uma perda, e é esta perda que tem sido o problema. Relativizou-se a teoria, porém, ecleticamente, procurou-se unir o que é importante em cada teoria formando uma nova teoria (teoria?...), melhor, uma nova técnica a-teórica para se trabalhar. Relativizou-se a teoria. Ela não dá mais conta de tudo. Doravante, potencializou ao extremo o sujeito: ele dá conta de tudo utilizando todas as teorias.
As teorias viraram meras ferramentas. Usa-se qualquer coisa para trabalhar. Abordagem eclética. "Le temps de l'éclectisme. Les thérapies à la carte". Chega alguém a um consultório psicológico, recebe um menu e escolhe a abordagem que deseja. O psicólogo se enrola, muda o set terapêutico e trabalha de acordo com o desejo do cliente: "me peça que realizo teu desejo".
Um gozo fatal e mortífero. Temos, capitalisticamente, permitido ao povo, ainda assujeitado, apesar de achar-se sujeito, realizar seus desejos (que desejos são estes?), sem questioná-los, sem problematizá-los. Que ética esta presente nestas condutas?
Chega um paciente a uma empresa de psicologia. Basta uma secretaria na portaria. Ela tem o papel mais importante: dizer tudo sobre você e como você será curado (curado de que?). Em seu computador, digita seus fatores psicológicos, seu problema e realiza um mapeamento de qual profissional e qual abordagem resolverão a situação em quanto tempo. Viramos profissionais vendidos. É isto o que seremos? Meros técnicos em psicologia?
Não temos lido mais. Não temos buscado construir conhecimento. Temos misturado tudo, temos feito uma sopa de teorias e tentado trabalhar o sujeito passando por cima das bases filosóficas que estão presentes em cada linha. "O homem lobo do homem" se junta ao "homem é humanamente bom" e tudo é feito. Confuso, não?
Um psicológo, um profissional psi, que não tem conhecimentos em filosofia, sociologia, antropologia, anatomia, e outras linhas, não merece ser psicólogo, merece ser um técnico. Pior, todo técnico é a certeza de que o sistema conseguiu enfraquecer mais uma classe e transformá-la em joguete, em fantoche. Estamos perdendo e fechando nossos olhos.
É preciso refletir a respeito destas práticas. É preciso quebrar a idéia do menu, do prato do dia. Seguindo Lacan, "não responda ao que eu lhe pergunto, pois não é isso o que quero".
Esses ecléticos...
Em pensar que o povo adora, os ecléticos e O Segredo.
Le temps de l'éclectisme. Les thérapies à la carte